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sábado, 23 de janeiro de 2010

Matéria interessante do Estadão

Quinta-feira, 21 de abril de 2005 - 13h59 - por Carlos Orsi
E esse tal de secularismo?


Prepare-se para as "flame wars" que provavelmente se seguirão à comoção religiosa provocada pela eleição do novo papa...
São Paulo - Com a eleição do cardeal Joseph Ratzinger para o comando da Igreja Católica – agora, o papa Bento XVI – uma palavra até então não muito comum no discurso cotidiano entrou em curso: “secularismo”, que seria o principal desafio do novo pontífice. Segundo o Houaiss, secularismo é “regime laico, secular; exclusão, rejeição ou indiferença à religião e a ponderações teológicas”.
Se religião já era um tópico candente nas discussões travadas via internet (ao ponto de moderadores de vários grupos simplesmente proibirem o assunto, para evitar o caos), se o tema já contava com cerca de 35.000 comunidades no Orkut – o triplo de política, com 13.000 – a chegada do secularismo ao centro do palco, como objeto de debate, tenderá a acirrar os ânimos. Mas, para além do verbete de dicionário, na prática, o que é esse tal de secularismo?

Como toda fonte de polêmica, o secularismo pode ser apresentado em várias cores e sabores, dependendo de quem fala sobre ele – se detratores ou defensores. Na definição mais neutra que consigo imaginar, o secularismo confunde-se com o laicismo, e representa a idéia de que a religião é um assunto particular de cada um, pertinente à esfera privada.
Digamos, por exemplo, que Fredo tenha uma religião que o proíbe de comer amendoim às terças-feiras. Num sistema laico, isso é problema dele e ninguém tem nada com isso. Mesmo se no país em que ele vive, a Beltrônia, a maioria da população segue outra religião que manda comer amendoim todos os dias, Fredo continua com o direito de se recusar a fazê-lo sem ser discriminado. E se algum deputado tentar fazer uma lei obrigando Fredo a comer amendoins (ou se Fredo se eleger e propuser uma lei mandando fechar as barraquinhas de amendoim às terças), essa lei será considerada irrelevante, ilegítima e, ou não será aprovada, ou cairá na Justiça.
Falando assim parece perfeitamente lógico e justo, mas tente trocar “amendoim” no parágrafo acima por “aborto”, “união homossexual”, “uso de camisinha” e veja a confusão que vai dar.
O problema, claro, é que a religião raramente se contenta em ser um assunto particular. Se você é educado num sistema onde a prática “X” é vista como errada ou pecaminosa (ou ambos), é difícil ver os outros fazendo isso sem achar que é preciso corrigi-los.
Você pode conversar com as pessoas e tentar fazê-las mudar de idéia, mas no fim será tentado a levar sua ação para esfera do Estado. Aí chegamos à parte mais dura da definição de laicismo do Houaiss: “indiferença à religião e a ponderações teológicas”. Ou seja: argumentos religiosos e autoridade religiosa não são levados a sério no debate maior da sociedade.
E isso é um problema? Por um lado, o secularismo impede, entre outras coisas, que as mulheres sejam obrigadas a andar de burka e permite o divórcio. Por outro, o tipo de restrição que o secularismo impõe a certos tipos de argumento acaba incomodando muito religiosos que crêem ter pontos relevantes a apresentar.
Um dos aspectos mais curiosos do embate entre religiosos e secularistas é que os dois lados se sentem oprimidos um pelo outro: os religiosos, pela sociedade que parece muito pouco interessada no que eles têm a dizer e os secularistas, pelo processo de tomada de decisões na esfera pública, muitas vezes visto como “contaminado” por crenças religiosas. Afinal, por que há crucifixos nos tribunais?
Esse, parece, vai ser o grande duelo intelectual da Era Bento XVI. É melhor se preparar.
Carlos Orsi Martinho
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